4 de jan. de 2008

C.

Tanto que ouço... tanto que leio...

“Não sou hipócrita, sou o que sou!”

Sim!? E quem é você? Pergunto já sem força.
Existe essa resposta? Quem se é, implica o tempo, o sentimento, o ambiente, o instinto... palavras imensuráveis de significados ainda mais complexos.

Ouço, leio...

“Essa é minha essência!”

Que essência? Pergunto já impaciente.
Essência infantil? Essência animal? Muito abstrato, para mim, essa definição de essência.

E sigo ouvindo e lendo...

“Não sou hipócrita!” (Com uma convicção que até me assusta)

Hipócrita em relação a quê??? A você mesmo? Ao mundo? Ao seu chefe? A sua família que ama ou desdenha? Ao olhar a pobreza em sua volta e continuar a vida como se não tivesse culpa também? Ao olhar a natureza se acabando e continuar pensando em que roupa vestir hoje?

“Não faço parte deste contexto!!!” Revoltam-se. (Essas palavras gritam nos papeis e em meus ouvidos).

Me torno um pouco caustica, e retruco; - De que contexto faz parte então? Não vivemos no mesmo planeta? Não somos humanos? (Acho que não é o meu gato que está lendo...)

Aaaaaaaaa... já não consigo “digerir” esses pensamentos caducos de palavras recheadas de uma pseudo-cultura medíocre, única e massificada. (Valeria mais saber caçar com as mãos, fazer fogo com lascas de pedras e soltar os instintos de uma vez.) Bom, não deu tão certo assim, pois mudou, porém seria mais verossímil.

Ahaa! Esse é o ponto.

Quais os seus instintos mais recônditos? Os mais impermeáveis e aprisionados? Os mais massacrados pelos padrões? Essa pode ser a chave da busca de quem se é. Será? Talvez não (não seria tão simples...), mas de qualquer forma nos dá margem a espreitar o que poderíamos vir a ser.

Somos animais antes de tudo. Eu sou, você o é, e todos aqueles que levantam a bandeira do movimento anti-hipócrita também o são...

É bem verdade que, as conseqüências da liberação do que “realmente” somos (ou melhor, temos vontade), não seriam as melhores ou mais utópicas do mundo. Hum, me imagino em um momento de fúria arrancando a jugular de alguém com os dentes. Ou uma hipótese pré-histórica até interessante, dando cabo de uma fêmea em prol de um instinto sexual exacerbado e desejado por um macho.

É, e de pensar que é de fato assim na natureza....

Sim! Os animais são autênticos e isentos de hipocrisia. Mesmo que subjugados ao corpo e as intempéries naturais.
Quem de nós ousa negar o mundo de fato?

Ok! Sei que sempre há um ermitão por aí, mas mesmo “ele” é cínico consigo. O homem é um animal sociável, e mesmo que não o fosse, em um dado momento os hormônios se agitariam e.... (?)
Quem é esse ermitão? O último de sua espécie? Não? Então, estamos no mesmo barco, na mesma realidade.

Limites, castrações, prisões!

Ninguém nem mesmo tem a liberdade do ir e vir! E se quiser andar pelo mundo?
Ah, tá...., “tire um passaporte e vá!” hahahaha
Como? Não tenho nem mesmo a liberdade de atravessar o meu continente de jejum, bebendo as águas dos rios (poluídos) e a pé!
Necessitaria do maldito passaporte! Do maldito visto! Do maldito dinheiro para o maldito visto! Do maldito trabalho para o maldito dinheiro! Do maldito estudo para o maldito trabalho! Do maldito esquema educacional! Da família etc.

Qual a diferença de nós e uma boiada indo para o abate? Nasci em um berço esplêndido, boa relva, sombra e água fresca, e vem o homem bom que me cuida, me leva para um lugar diferente e pimba! Virei pedaços de bifes vendidos no Bom Preço.
Vivendo um dia após o outro com mil e uma especulações do que somos, do que temos, do que (preencha com o que quiser)...

E ainda assim enxurradas de textos e “papos-cabeça”, sobre se ser ou deixar de ser.

No fundo sabemos o que queremos, acho?!.

Às vezes é inviável alcançar esse desejo, às vezes mesmo estando tudo ao nosso alcance, a cultura e/ou a sociedade oprime essas vontades.

Contudo, o pior não são as privações e sim nós mesmos.
Que medo!
Medo de quê?
De se assumir. Assumir o que temos de pior. Assumir o que temos de melhor. Se expor mais. Se aceitar mais. Se adequar mais. E muitos “mais”!!!

É, é o medo da existência por si só. Existência essa que damos muitos significados enlouquecidos, criando crenças, valores, fatores. É só aceitar que não conhecemos a dimensão da própria existência. Não é a Matrix. Sempre tentamos utilizar “nossas mais incríveis criações e/ou descobertas” como parâmetro para algo que não conseguimos nem mesmo vislumbrar uma definição.

Somos tão simples e tão complexos ao mesmo tempo. Tão pequenos e tão grandes. Tão... tantas coisas...

Escrevam, digam, já que sabem quem são, o que sou? O que somos? Só não afirmem que não existe hipocrisia, e que se pode ser o que se “é” de fato.

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